Sábado, Março 24, 2012

Um shopping. Muito mais que um shopping...

Nostalgia é uma palavra que, geralmente, traz uma ideia de tristeza... Entretanto, nem sempre é assim. Em certos casos, nostalgia tem sabor doce, de mousse da Brunella...

Brunella?

Pois é, hoje estou nostálgica.

Alguns lugares provocam mais esse sensação de me sentir ligada ao passado. De um deles já falei aqui, o Colégio Pio XII, onde estudei até a 8o série e onde voto. Sim, a nostalgia ali é tão saborosa que, após 7 anos no interior, ainda não tenho coragem de mudar meu título. Dia de eleição é dia de lágrimas, de andar pelos corredores, pensar em amores, amigos, mestres...

Outro lugar é, a princípio, menos profundo, ou aparentemente fútil. É um shopping...

"Nossa, eu sempre achei que a Jeca fosse toda simbólica, desligada desse materialismo mundano, e ela me vem com nostalgia de shopping???"

Calma, deixe-me explicar.
Sim, o Shopping Morumbi é um dos lugares que mais me levam ao passado, em que mais me sinto em casa, onde me vejo com 14 anos. Menos, ainda.

São Paulo dos anos 80. Quem viveu sabe. Nossa infância de Chico Anysio Show... Viva o Gordo... Tempo tão maravilhoso que já é até moda. Nós, dessa geração, nos sentimos privilegiados de ter vivido nos anos 80. Os bailinhos ao som de George Michael e B'52. Gel New Wave. Roupa fluorescente da OP, calça da Fiorucci. Sapato e jaqueta da London Fog. Agenda da Workout.

Na era pré matinê do Sirio, Ipê, Up and Down e Blackout, a balada rolava à tarde, no shopping. Cada bairro frequentava o seu. Como no interior, claro. O meu, era o Morumbi.

Vimos o shopping inaugurar e crescer. Das primeiras lojas até o mega complexo que é hoje, foi um longo percurso. Andando por ele, vejo claramente as lojas que já se foram. Vejo a pista de patinação onde hoje é uma imensa praça de alimentação. À frente dela, vejo a DUX, onde eu amava comprar material escolar. Seguindo reto, onde hoje há um corredor de lojas chiquetérrimas, brincávamos no fliperama e no boliche, onde quando eu tinha 12 anos, um doido de uns 30 me assustou, me perseguindo. Até hoje sinto arrepios.
São tantas histórias. Tantas sessões de cinema. Tantos amassos. Tantos encontros e desencontros. Flagras. Fofocas. O povo das escolas do bairro se encontrava ali. Era o point.

Engraçado que ainda hoje, ando pelo shopping olhando para as pessoas, pois sempre encontro algum rosto conhecido. Muitos ainda moram por aqui, e se não moram, voltam, em busca desse açúcar emocional que é voltar à infância. Como eu.

A pista de patinação se foi. A Brunella já não existe mais. Mas ainda há um portal para os saudosos. Uma loja que resistiu ao tempo, à internet, às Mega Stores. Uma loja que viu o shopping crescer à sua volta.

A Billbox.

A loja de discos que se mantem em pé. Adoro passar em frente e sentir o cheiro de passado, quando eu entrava para dedilhar as capas de LP que eu não tinha dinheiro pra comprar. Sempre olho na esperança de ver o vendedor de cabelo comprido e bigodes que era marca registrada da loja. Fico feliz em vê-la sempre cheia.

Minhas vindas a São Paulo têm sido assim. Já afastada do dia a dia da cidade há anos, ela cada vez mais se mostra, pra mim, como o palco de um tempo maravilhoso, cada bairro com um sabor de aventuras diversas, simbólicas de fases, de amigos, de amores vários.

Quem acha que nostalgia é sempre triste, ainda não cresceu para se lambuzar nela...

Inté!

Segunda-feira, Março 05, 2012

Dia da Condessa

Nestes últimos dias eu ando com o coração um pouco apertado... Apertado de preocupação mesmo, de tristeza e saudades...Fuçando um álbum de fotos, encontrei uma foto antiiiiga, 3x4 de uma professora minha. Uma professora, não. "A" professora. "A" professora em que me inspirei para me tornar, também, professora. A que me inspira ainda hoje. A minha referência. Tanto que, adolescente, guardei uma foto dela... Doido, não?...

Lembrei-me de que ouvi que ela havia tirado uma licença de saúde. Sabe como é, o boato que não é informação mais atrapalha que ajuda. Liguei então no colégio, e descobri que realmente o estado de saúde dela é delicado. Precisei parar por um segundo pra pensar nela. Não da maneira em que sempre penso, como a bela professora de sorriso doce que me ensinou português na 8a série, mas como a linda mulher que agora está passando por uma batalha... E, como preciso escrever pra pensar melhor, aqui estou.

Pra começo de conversa, ela é condessa... Ela sempre me impressionou pelo porte, pelo nome, pela atitude. É condessa mas tem nome de Rainha. Eu, na inocência dos meus 14 anos me abismava em ver que uma mulher tão elegante fosse professora. Sim, eu como vários outros adolescentes via o docente como um velho barrigudo que não teve perspectiva outra na vida. Ela não... Era advogada, estrangeira, linda.... Ela falava e movia as mãos com tanta delicadeza que eu me lembro até hoje de um anel de dedinho que usava, prata com uma pedra preta. Ele dançava em frente aos meus olhos e eu me sentia hpnotizada por ele. Por ela... Mais tarde comprei um anel igual. Usei por anos, talvez buscando matar dela a saudade que uma escola nova me deixou.

Nunca deixei de visitá-la. Minha identificação tinha um motivo, ela também se via em mim. Cada passo que dei mostrei a ela. Ela viu meus poemas. Ela soube quando fiz Letras. Ela me atendeu quando, já colega de trabalho, tinha dúvidas. E mesmo depois de adulta, a cada vez que ligava pra ela, meu coração disparava de ansiedade, e desligava com um nó na garganta. Tipo, ídolo mesmo.

Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando, em uma visita na própria escola, ela me disse que sempre quis que eu a substituísse. Ela via em mim sua sucessora... "Pena que você se mudou pra longe, Tati Argeiro."
Nunca esqueci esse elogio. Ela se via em mim? Ela??? Em mim??? Mas ela é o máximo!!!

Ela me ensinou demais. Lembro, sim da letra arredondada dela na lousa. Mas isso não aprendi...
Aprendi com a Condessa que um professor pode mudar a vida de um aluno. Não estou sugerindo que eu cheguei aos pés dela, porque sei que estou longe disso. Mas sei, através de minha relação com ela, que tudo que faço tem força. Aprendi que o que dizemos aos alunos pode ser inesquecível. E que isso é bom demais, mas perigoso demais também. A Condessa nunca usou uma palavra atravessada conosco. Fazia tudo de cima de um salto que só um sobrenome basco consegue ter. Chique. Fina. Humana...

Eu sou a professora que sou por causa dela. Por causa daquele anel que me envolvia em mágica numa sala de aula.

Sem notícias, só posso dar uma choradinha básica enquanto escrevo (mas sem ser choro feio, que não combinaria com ela...) e mandar todas as minhas energias positivas pra que ela se recupere logo. Eu sei que vai ficar boa. E que logo vou poder ligar de novo, pra simplesmente ouvir aquele alô doce e aveludado, falando, surpresa
"Tati Argeeeeiro, que delííícia falar com você!"

Condessa, fica boa logo. Eu já estou com saudades....

Com muito amor

Sábado, Fevereiro 25, 2012

A mãe que grita

Este não é exatamente um blog de maternidade, mas sendo o blog de uma mãe, fica aí aberta a possibilidade do tema.

Acredito que seja absolutamente desnecessária toda a filosofia de sala de espera de pediatria que atesta o quanto uma mãe sofre em meio a toda a felicidade que é ter filhos. Todos sabem. Sabem também que finda uma preocupação, outra toma seu lugar, até o dia em que sua filha (ou nora) está aberta na sala de parto, e você suspira pensando:

"Ufa, finalmente eles estão prontos, eu vou curtir minha terceira idade em uma sala de Faculdade de História na Toscana (oops, sonho meu, desculpem...) sem me preocupar com nada!!!"

E então você vê a carinha do seu netinho e percebe que a preocupação não acabou, simplesmente duplicou...

Ou seja: o ciclo é infinito.

Você tem preocupações de todo tamanho: se se alimenta bem, se tem mosquito no quarto, se vai bem na escola... Umas mães se descabelam ao ver que o filho se machucou, e outras que ele não faz amigos como ela acha que ele deveria... Somos todas descabeladas, aceite o fato, ou não.

Mas o que me deixa realmente de coração pulando, é ver o caminho que se apresenta, saber que já o vi antes e me lembrar exatamente do sofrimento que tal percurso causou.

Eu sempre fui uma pessoa altamente extrovertida, do tipo que tinha habilidades claras e louvadas constantemente. Cheia de defeitos, lógico, mas nesse ponto, boa no que decidia fazer.
Minha irmã amada, no entanto, de alma mais instrospectiva (siiim, para que conhece a Caia fica difícil acreditar que ela era tímida, pois hoje é a alma de toda a festa...) demorou para se entender.  A sensibilidade é geralmente ofuscada pelo grito...

E eu gritava, e muito...

Em um ponto do caminho, ela quis fazer aula de violão. Em um ponto não, eu tinha já 12 anos. Ela 10!! Longos 10 anos até começarmos a ver o que borbulhava dentro dela.

"Também quero, lógico!!! Vou amar fazer violão!!"

Foi ali que minha mãe, que HOJE entendo que vinha sofrendo para ajudar a caçula a se conhecer, acertou: me chamou de canto e disse:

"Vamos deixar o violão pra Caia? Você já faz outras coisas, vamos deixar que ela descubra algo em que ela brilhe?"

Alguns anos depois, lá estava ela, linda, soberana, cantando em uma banda de forró. Completamente achada...  Mas o caminho foi duro... Pra ela, e hoje vejo que talvez tão duro quanto, pra minha mãe...

Como dói ver um filho que sofre por algo que ele próprio desconhece. Vejo minha irmã no Romeo. Vejo meu marido (que passou por algo parecido) no Romeo.

Tenho um filho lindo e sensível, que ainda não sabe que é assim, e que acha que o mundo louva apenas a graça e brilho externo da irmã. E eu um pouco perdida, sem saber como ajudá-lo. Como minha mãe, há tantos anos. Com medo de ele borbulhar demais, e não achar o foco da dor.

Mas enfim... Como escrever faz parte de meu processo de compreensão do mundo, aqui estou... Se não fosse o blog, este texto começaria com "Meu querido Diário", e apenas eu o conheceria. Ficaria borbulhando dentro de páginas fechadas, sem ser gritado...

Aqui ele fica ao vento, pra quem clicar e de alguma maneira nele se achar.

Porque,  como já disse acima, eu grito... E grito muito.....

Inté!

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

E a Jeca nasceu...


Falar da Jeca é sempre muito gostoso, pois já vão aí quase 6 anos de blog, e mesmo que há alguns eu não dê conta de atualizar, não há coragem nenhuma de exterminá-lo.
A Jeca nasceu de uma extensão terapêutica...
Pra entender a Jeca, é importante conhecer um pouco da Tatiana... Pra quem não sabe, eu fui comissária de bordo por algum tempo, lá no passado, e vivia no eixo São Paulo, Nova York, Los Angeles e Tókio. Eu trabalhava em uma companhia japonesa, e vivia de maneira bem cosmopolita.
Meus anseios acadêmicos falaram mais alto, e em 2002 eu parei de voar e voltei a dar aulas.
Ainda na metrópole São Paulo, minha casa desde que nasci, conheci o maridão, que estava de mala prontas para assumir um emprego no interior. Quase roça, diga-se de passagem... Pelo menos era assim, pra mim, quando me mudei pra cá de mala e cuia, em 2005.
Agora, coloque-se no meu lugar: Recém casada, deixei pra trás o agito de SP, a casa da mãe, o emprego, os amigos e até de carro troquei. Fiquei totalmente sem referência nenhuma.
Meu primeiro ano aqui foi terrível. Sem conhecer vivalma na cidade, sem trabalho, e em uma cidade pequena, com pouca estrutura e hábitos um tanto diferentes dos meus. Lembro que em um dia de faxina (era o que me restava) eu vi a vassoura na lavanderia e caí em prantos. Corri pra São Paulo conversar com o professor que no ano seguinte se tornaria meu orientador no mestrado.

"Preciso de movimento. Uma vassoura me fez chorar, eu sou cosmopolita demais pra viver assim!!"

Resultado, voltei pra terapia, comecei meu mestrado e em 2006 comecei a dar aulas na escola onde estou até hoje.

Nesse ano de aclimatação, comecei a escrever sobre minha visão da cidade. Lá no começo da Jeca, o tema era único, a vida de uma pessoa URBANA em uma cidade do interior. Daí, Jeca Urbana.

O maravilhoso do blog, no entanto, foi que (além de conhecer pessoas especiais por aqui) pude, ao longo do tempo, perceber que fui invertendo a ordem do título... A jequice vem tomando conta, e cada vez mais me torno um ser híbrido, que para os paulistanos é caipira e para os daqui, urbana demais...

Inté!

Sábado, Dezembro 24, 2011

Para não falar de Natal...

Peço desculpas aos leitores que esperam um post natalino, com os costumeiros desejos, reflexões, etc., mas eu sou um pouco empapuçada desta temática que já permeia minha vida diária. Vou falar então, de outra coisa...

Acabei de acabar (perdoem-me, mais uma vez, agora pela expressão quase pleonástica) um livro que vinha me desafiando há algumas semanas: O Cemitério de Praga. Por que escrever sobre um livro, dentre tantos outros maravilhosos que passaram pela minha cabeceira em 2011? Talvez porque ele tenha me mostrado um sentimento antagônico que há tempos eu não vivia: amor-ódio, assim, juntos pelo hífen. Uma coisa só.

Já disse por aí antes que não estava apaixonada por ele. E não estava, mesmo. Foi árido, foi difícil e por vezes pensei em desistir dele. Mas algo me fazia seguir em frente, e ao fechar a última página, ssenti necessidade de registrar essa sensação, talvez para fechar em mim o famoso "gostei ou não gostei".

Seria loucura da minha parte dizer que o Umberto Eco fez um livro ruim. O livro é genial nos aspectos formais e da própria ideia do enredo. Fiquei impressionada com a erudição do autor, com a profundiade da pesquisa histórica e com a habilidade fora do normal de juntar as personagens verídicas em um texto ficcional. Gênio.
Amei a estrutura narrativa, o afastamento e criação de um narrador praticamente misturado ao autor e da personalidade típica na escrita dos outtros narradores. Preferi ler o Abade ao falsário, preferi o Abade ao narrador. De tirar o chapéu.

Fenomenal também é a capacidade de se criar um pensamento que naturalmente não seja o do autor. Eco é canônico ao se afastar tanto de seus protagonistas a ponto de mostrar seus pensamentos preconceituosos que hoje fariam dele um vilão. Quase um Dostoiévsky. Falar mal dos judeus e maçons da maneira como "Simonini" fala incomoda, remexe nossas enranhas e mostra que o livro não é para qyalquer um, mesmo. É necessário ter a consciência de que quem fala não é o autor. Ele apenas transforma em protagonista um típico antagonista.

E talvez justamente isso tenha sido meu terreno árido. Muita conspiração, muito ódio, muita preparação para o que Hitler fez no século XX.
Mas não vou falar do árido. Muita gente vai ler e formular sua própria relação com o livro. E essa é a magia do natal, oops, quer dizer, a magia da literatura, da Arte: a relação que criamos com o texto.
Esta foi a minha.

Inté!

Domingo, Dezembro 04, 2011

Sonho de desconsumo

Eu acabei de chegar do Shopping. Pois é, fui comprar uma blusa verde para passar o reveillon.  Durante anos passei de rosa, até que achei que o amor estava bem resolvido. Agora, quero saúde, então visto a família toda de verde.
TEM que ser verde. E TEM que ser nova... Sei lá por que, mas é assim que minha superstição capitalista funciona.

Enquanto eu lia este texto aqui, a blusinha me olhava, deitada ao meu lado na cama.  E ela me lembrava de um percurso que eu tenho percorrido nos últimos tempos, em uma tentativa de simplificar minha vida e meus valores...
Seria hipocrisia demais, da minha parte, dizer que eu tenho uma essência hippie que nega a cultura capitalista e que me "enjoo" de ver o consumismo ocidental... Me enjoo é de ver quanta coisa meu bolso impede meu bom gosto de realizar, isso sim... Entretanto, tenho me questionado muito sobre o quanto eu compro e pra que tanta coisa... Esse questionamento aconteceu com mais força depois da minha viagem à Itália, em junho.  Sempre fui fanática por viagens, mas tinha me esquecido do valor delas depois de uns anos parada.
Filhos, casa, papagaio, enfim, o estereótipo completo do "brazilian dream" me envolveu exatamente como a jornalista do texto supracitado descreveu.
Ao voltar de viagem, já reservei outra, que vou fazer em companhia das minhas cunhadas e de uma prima, e o simples ato da reserva me tirou o tesão de fazer compras. Achei meu high de novo... Achei a motivação de que preciso para viver com mais simplicidade... Ter uma viagem à vista me põe os pés no chão e me faz querer cortar cada vez mais. Pra quê tanta coisa no armário? Em que meu "estilo" me define? Prefiro me definir pelos lugares que visito, pelos pratos que experimento, pelas pontes que atravesso... De verdade.

Meu sonho de consumo é, no fim das contas, um sonho de "desconsumo", com o perdão do neologismo:  ter uma casa MENOR, em que as crianças também tomem as rédeas da manutenção para que dispensemos a figura cômoda, porém incômoda da empregada doméstica. Assim, poderemos, além de proporcionar aos nossos filhos mais oportunidades de viajar e de conhecer outras culturas, ensiná-los a ter uma visão diferente da vida, com maior consciência e mais afastados da banalidade do "ter" para "ser".

Não faça essa cara de "ah, tá... até parece"... Acho isso possível mesmo... O que nos falta é força de vontade de colocar em prática um movimento que vai contra a corrente de nossa cultura. É difícil, mas possível... Meus filhos já ajudam a secar a louça (de plástico, lógico), já colocam a roupa no cesto, já arrumam (do jeito deles) os brinquedos... E eu estou me policiando quando entro em Shopping... É um caminho longo, mas eu estou bem ansiosa por ele. Afinal, a "metáfora da jornada,. é a metáfora da vida"...

Inté!

Domingo, Novembro 06, 2011

Uma reacionária na USP...

Oi, eu me chamo Tatiana, e eu fui aluna da FFLCH da USP...
Oi Tatiana.....

Eu entrei pela primeira vez na FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) em 1995. Aquilo era um sonho, estava pronta para me aprofundar na minha amada literatura e de quebra sairia com a licenciatura de inglês também... Um sonho. Entretanto, os ares me chamaram com força além do esperado, a faculdade não era assim tão excepcional e eu acabei deixando pra trás.
Três anos depois voltei. Em 1998 decidi que inglês tinha sido um lindo caminho até ali (comecei a dar aulas de inglês com 14 anos...) mas que meu coração estava mesmo no seio da Flor do Lácio. Resolvida, sem sonhos idealizados, e já voando, comecei meu percurso ali. Preciso dizer, antes de mais nada, que eu AMEI os anos que passei na USP. Tive colegas maravilhosos, professores fantásticos que me levaram a um Mestrado fenomenal reodeada de discussões profundas. Morro de saudades. Adoraria ter tempo e motivação para fazer meu doutorado, mas não é para já...

Mas não foi pra louvar minha amada FFLCH que estou escrevendo agora. É para demosntrar minha vergonha com relação aos atos pseudo-revolucionários da parcela de estudantes que ainda se sente no direito de brincar de "ditadura"... Só falta eles irem até o Mackenzie birgar com os "burgueses" que representam a "direita" nacional.... Blagh!!! E digo isso com conhecimento de causa.

Conto aí de 1995 até 2008 13 anos de USP, entre graduação e mestrado. Não me lembro mais de quantas greves, ocupações e montes de blá blá blá que presenciei. Lógico que algumas coisas deveriam ser mesmo resolvidas, mas eu nunca fui partidária desse tipo de violência.
Me lembro bem de um figura, que em 1995 já parecia ter uns 40 anos. Moreno, bigodudo, nunca estava em sala de aula, mas vivia agitando Assembleias, manifestações, protestos. Lembro de ter sido IMPEDIDA de ir à aula pois a faculdade estaria FECHADA para discussões sobre eleição de DCE... JURO por todos os orixás e deuses pagãos e não pagãos que esse SER continuava agitando em 2008. Qual a função daquela criatura ali??? Não devia ser mais aluno, já teria sido jubilado há anos... E ali estava ele. Sempre de figurino guerrilheiro, pixando a cada mandato FORAS diversos. Vi pixado FORA FHC, vi pixado FORA LULA, vi pixado FORA PSTU e FORA ALUNOS QUE QUEREM ESTUDAR E SER BONS PROFESSORES. Ok, esse último não chegou a ser pixado, mas que foi pensado foi.

Sempre me senti uma pária ali. Nunca ia às tais Assembleias, cheias de manifestações políticas que dado nosso contexto, não deveriam paralizar aulas. Discutir, sim, lógico, a Universidade sempre foi um berço para as novas ideias, mas será que já não deveríamos ter aprendido com a História a ser mais eficazes em nossas lutas?

NUNCA, em 13 anos de FFLCH, vi uma manifestação que paralizasse a faculdade por melhor formação. NUNCA vi DCE nenhum lutando por mudar a grade da Licenciatura, que é ultrapassada e nos forma mal. JAMAIS fui chamad para refletir o sistema escolar brasileiro, ou proposta alguma que nos tornasse cientistas da educação, e não meros reprodutores de conhecimento. Podem me chamar eles de reacionária, ou de qualquer termo que eles usam enquanto fumam maconha no carro ao invés de assistir aulas.

Se ser reacionária é estar cansada de FALSA ideologia, sou reacionária... Se ser reacionária é não comprar esse papo de "ainda vivemos uma ditadura capitalisa", sim, guilty as charge. Assim mesmo, em inglês imperialista.

Gostaria de ver uma geração de alunos da FFLCH que me orgulhasse propondo alternativas novas à educação. Que tivesse na faculdade para ESTUDAR, REFLETIR e MUDAR efetivamente a nossa profissão. Eles, aqueles ali, que estão tomando cerveja em um prédio invadido, protestando contra uma parceria com a PM que só AJUDA a Cidade Universitária são os futuros professores do país. Os mesmos que serão sindicalizados a ponto de não aceitarem a melhoria necessária ao currículo das escolas. Os mesmos que vão fazer piquete contra a NECESSÀRIA meritocracia na educação. Os professores que querem, exigem ser valorizados, mas que não perdem uma licença, que não deixam de faltar quando bem entendem e que não querem ser exonerados por maus resultados. Alíás, são os futuros professores que NÃO querem nem ouvir falar de resultados... "E educação é empresa privada??? Resultados??""

SIIIIMMMMM

Resultados, Técnicas. Metodologia. Tudo o que a faculdade hoje não oferece. Então que tal eles mudarem o foco e cobrarem isso?
Quero ver pixado nos muros da FFLCH
"MANIFESTAÇÃO POR UMA EDUCAÇÃO SUECA",
"QUEREMOS AULAS DE METODOLOGIA EFICIENTES!".

Aí sim... Aí eu não preciso dessas sessões de desabafo, aí vou ter certeza de que estaremos em um caminho realmente democrático e maduro... Pois é, maduro....

Quarta-feira, Novembro 02, 2011

Escola ideal...

Respondendo a um desafio da Mamatraca, resolvi escrever aqui um pouco sobre a tão difícil tarefa da escolha da escola...
Confesso que é bastante difícil escrever sobre isso  por alguns motivos bem óbvios:
Primeiro, sou professora. Professores tendem a sser muito críticos com relação a isso.
Segundo, meus filhos estudam na escola onde dou aulas, então rola todo um lance Apple + Facebook que pode complicar se eu quiser falar do que não acho bom. E eu costumo ver a rosa por trás dos espinhos, então foco sempre no que acho de bom.

Mas vá lá, digamos que eu fosse uma médica aterafada que não tivesse nenhum vínculo com escola alguma. O que a Dra. Tatiana Neurocirurgiã procuraria?

Bom antes de ser neurocirurgiã, a Dra. Tatiana estudou um pouco de pedagogia, e teve contato com duas filosofias que a encantaram. O construtivismo e mais radicalmente, a pedagogia Waldorf... Dentro dessas duas práticas, há algo que agrada bastante a nossa médica, que é o contato maior da criança com seu próprio aprendizado e com a natureza. Em uma escola assim, a aproximação da criança com elementos artísticos é feita de maneira MUITO pensada, desde artes plásticas até a musicalização. A Dra. acha que que a maneira construtivista de se pensar nas atividades, sem interferência escrita do professor, sem margens que comportem os alunos, sem enquadrar nada no processo de descoberta da criança seriam ideais para seus filhos.

Além disso, a escola em que a Dra. matricula seus filhos seria o mais natureba possível... brinquedos de madeira (ahh, se ela voltasse no tempo até tinha se formado profissional de escola Waldorf), festas ligadas à natureza e terra, muita terra. Pais participativos na comunidade escolar levam os ingredientes para que todos façam a granola que será servida no lanche. Biscoitos recheados não precisam ser proibidos, pois a comunidade da escola tem a mesma filosofia, e nem pensa em colocar na lancheira.

Mas eu não sou a Dra. Eu sou professora, e apesar dos problemas, gosto muito da escola onde meus filhos estão. Nasceram lá... Todos me viram grávida, acompanharam cada passo deles, e lá eles são família. Não há escolas construtivistas nem Wladorf na minha cidade. A escola ideal é a minha. É onde meus filhos entram na diretoria com a maior cara de pau para roubar biscoito. É onde as professoras os tratam com carinho e dão o máximo de si para proporcionarem as atividades mais bacanas para as crianças, até se fantasiando de bicho pra fazer teatro. É o lugar que me dá confiança total para que sejam tratados como crianças devem ser tratadas, com respeito e carinho. E para mim, uma grande vantagem que muitas mães sonham em ter: trabalhar no mesmo lugar em que meus filhos crescem. Vê-los a cada intervalo, ter em suas professoras colegas de trabalho e estar presente nos momentos mais importantes não tem preço.

Terça-feira, Novembro 01, 2011

Saudades...

Escrever, para mim, é um dos atos mais catárticos que tenho disponíveis para elaborar minha visão do mundo. Lendo também me equilibro, mas escrevendo eu me acho.
Fico por vezes em frente à tela em branco visualizando as palavras se formarem, mas nos últimos tempos não dou conta da quantidade dantesca de sensações e ideias que precisam ser acomodadas aqui. Sempre digo que sinto saudades da Jeca. E sinto mesmo. Sinto por que aqui a Tatiana etérea encontra o eco necessário para que a Tatiana de carne e osso continue caminhando. Por vezes releio a série que fiz com o Capitão-mor (blog já finalizado e contato infelizmente perdido) e suspiro melancolicamente relembrando as tardes que passava inserida de cabeça na blogsfera...
Agora os temas me vêm e me fogem. As letras se confundem com os gritos das crianças que me chamam a cada minuto.
Me lembro de uma crônica do Fernando Sabino em que ele começa refletindo sobre sua falta de assunto. Em seguida, entra uma família simples que comemora em uma confeitaria o aniversário da pequena filha com uma fatia de bolo comprada no balcão. Uma cena tão singela, que tirou o escritor do marasmo. Uma cena tão singela, que gerou uma crônica sublime...
Escrevo aqui, hoje, para mim mesma. Para me fazer a promessa de não me abandonar, de não deixar que o pó tome conta desse canto. Aos poucos ele continua capengando, mas vivo.
E viva continua a Jeca... Step by step, letra por letra...

Sexta-feira, Outubro 07, 2011

Juliana

Tudo começou com um desabafo. Juliana procurou sua professora e disse que nada em sua vida doía mais que amar alguém mas não existir em seu mundo. Juliana tinha 11 anos.

Aqueles olhos verdes marejados por uma dor sincera e comovente fizeram a professora suspirar. Sim, ela se lembrava de quando tinha 11 anos e nada mais parecia doer que o pouco caso do amor. Com um sorriso de conforto, passou as mãos pelos cabelos loiros da aluna:

"Sei que doi, querida. É horrível se sentir rejeitada. Mas sabe? Eu mal me lembro dos meninos que me fizeram chorar. E por cada um deles eu chorei como se fosse o único da face da Terra. Você é linda, inteligente e está se mostrando bastante romântica. Isso é bom. Logo mais, vai se apaixonar por um menino que também será apaixonado por você. Não se preocupe."

Juliana até entendeu, afinal, era uma garota esperta, mas pensou que a professora não havia sentido exatamente o que ela sentia. Não era possível que alguém que amasse tanto um dia mal se lembrasse da pessoa amada...

Suas manhãs eram repletas de ansiedade. Escolhia seu melhor brinco e penteava seus cabelos dourados com a esperança nova de que naquele dia ele a notaria. Ao entrar na ssala já o via sentado envolto pelos amigos. Meninos dessa idade andam em bandos, pensava ela.

"Talvez ele tenha até medo de mim."

Suspirava e recebia como um bálsamo o olhar de bom dia que ele lhe dirigia. Mas logo batia aquela dor que Juliana compartilhara com sua professora, pois o objeto do carinho dele entrava na sala.

A manhã passava assim. A cada referência da palavra amor os colegas a olhavam, conhecedores de sua paixão. Ele, sem saber como lidar com tanto sentimento dirigido a si, olhava para o caderno encabulado, fingindo não entender nada.

Como é delicado aprender a amar e a ser amado...

No início do ano seguinte, seu galã mudou de escola. Outras paixões vieram, mas ela sempre se lembrava do sorriso encantador dele. E à distância, parecia ainda mais bonito. Por anos, nenhum menino foi igual...

Quinze anos se passaram. A escola promoveu uma festa junina que reuniu ex alunos, felizes em visitar professores e reencontrar amigos. Ninguém sabia de Juliana.

"Saiu da cidade, ouvi dizer"
"É, acho que estudou Cinema na USP, não foi?"
"Não, parece que morou fora, Paris, ouvi dizer"

Álvaro estava encostado com na barraca de quentão, rindo dos velhos tempos com os mesmos meninos que o rodeavam no 6o ano. Ainda se viam, jogavam futebol aos sábados. Vantagens de cidade pequena. Falavam dos cacoetes do professor de matemática quando viram uma mulher deslumbrante entrar na quadra, de mãos dadas com um rapaz. Aprumaram-se à medida que ela se aproximou. A loira usava um cachecol violeta que fazia seus olhos verdes saltarem do rosto. Andava com tamanha segurança que todos ficaram sem ar.

Juliana já não parecia fazer parte dali. Após anos estudando sociologia na França estava de volta à cidade, para ver a mãe. Morava agora em São Paulo, onde fazia doutorado e dirigia uma ONG.

Álvaro esboçou mentalmente algumas palavras que diria a ela, ficou ansioso e derrubou o copo de quentão que apoiava na barraca. Juliana, ainda atrelada ao namorado espanhol que a seguiu até o Brasil, sentiu que a mão suava. Olhou para Álvaro e viu o menino de 11 anos. Sentiu que os ombros baixaram, mais leves, à visão de um rapaz comum, que nada lhe dizia. A lembrança valia mais. Parou no meio do caminho, e ouviu uns gritos agudos de moças, que vinham pulando em sua direção. Sorriu com saudades daquelas amigas, e virou o corpo para elas. Após abraços, apresentações e comentários, foram em direção à fogueira.

Juliana fez menção de voltar atrás. Apenas olhou por cima do ombro, cumprimentando Álvaro com um aceno.

O que via à frente era bem mais interessante...